ESSA CASA NÃO É UMA CASA

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- Um Artista Popular Singular

Gabriel Joaquim dos Santos nasceu em um distante 13 de maio de 1892 em São Pedro da Aldeia, interior do estado do Rio de Janeiro. Filho de Benavenuto Joaquim dos Santos e Leopoldina Maria da Conceição, carregava no sangue a herança africana de seu pai e indígena de sua mãe em um país que começava a caminhar tentando se distanciar do peso dos grilhões dos séculos de escravidão e de toda exploração da indústria colonial.

Em uma família de 11 irmãos buscou construir sua própria identidade e em 1912 começou a construir uma casa em um terreno adquirido pela família. Em 1923 a moradia ficou pronta. Começou então a construção da Casa da Flor, obra de arte única feita ao longo de 60 anos a partir de cacos, lâmpadas queimadas e restos de materiais diversos doados por moradores da Região dos Lagos. Diferente de grande parte dos artistas populares que ao descobrirem sua linguagem criam as condições para sua contínua reprodução, Gabriel foi criador de uma obra só, impossível de ser reproduzida, que pede cuidados e manutenções constantes, e que exige de quem a quer conhecer de fato, a peregrinação de cruzar a antiga Estrada dos Passageiros que liga São Pedro da Aldeia a Cabo Frio para entender o motivo da obra impactar gerações.

Hoje a Casa da Flor é tombada pelo INEPAC e pelo IPHAN. Sobre ela, são e foram feitos diversos estudos que justificam todo o trabalho para a sua proteção e preservação. Esse site aponta caminhos para quem deseja conhecer melhor o pensamento do artista e do cidadão Gabriel.

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OBRA DE BIÉ DE VINUTO I

Por Ivo Barreto

“De fato, ao deslocar a função utilitária dos materiais, Gabriel opera com sua obra um manuseio do tempo, em interlocução com o observador(...) Ao deslocar os objetos ordinários de suas funções, Gabriel permite ao leitor reconhecer-se tanto nas dimensões literais quanto oníricas da matéria que compõe a ornamentação, seja pela provocação sensorial do seu conjunto, seja pelo valor de antiguidade, passível de reconhecimento em muitas peças que integram cada composição, acessando memórias sensíveis do espectador a ela relacionadas. Na medida em que trabalha na obra por mais de 60 anos, essa potência significativa se constrói paulatinamente e se esgarça de maneira admirável, conferindo-lhe contornos temporais amplos e não-lineares: é capaz de conectar muitas pontas externas do tempo, sem, contudo, se prender a nenhuma passagem específica de sua linha. Essa capacidade de trânsito livre, temporal e entre dimensões de apreensão, explica em parte a capacidade da obra em tocar uma diversidade imensa de sujeitos, fazendo que, além do tempo, “o outro” torna-se a substância da casa.”

Trecho de Entre a Matéria e as Imatérias. Plano de Conservação Integrada da Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia / RJ

(Gabriel Joaquim dos Santos)

“Sobre a colonização não se ergue a civilização, mas sim a barbárie. Dessa forma inscreve-se o fato de, a partir desse acontecimento, emergir também a necessidade de novos seres. Assim escrevo: resiliência = reconstrução tática a partir dos cacos despedaçados pela violência colonial.”

(Luis Rufino  - Pedagogia das Encruzilhadas)

PEQUENO GLOSSÁRIO DE NOVOS CONCEITOS PARA SEREM ARTICULADOS COM A CASA DA FLOR

Por Fábio Emecê

Assentamento

É a necessidade de firmar o conhecimento em um dado território para servir de bússola ética, moral e estética para quem chega e se coloca no terreiro; o universo de significações e ideias  que produz a potência geradora do encanto.

A Casa da Flor é uma resposta ao mundo desencantado pela diáspora?

A Casa da Flor é o gingado possível no vazio, é a cisma de que no vazio, algo pode ser feito, algo desejável, algo alicerçável.

“A gente entra nas cidades grandes, aquilo lá está tudo moderno, tudo bem organizado, tudo custa muito dinheiro. As pessoas veem a força da riqueza. Mas aqui eles gostam de ver porque é a Força da Pobreza.”

(Gabriel Joaquim dos Santos)