ESSA CASA É UMA HISTÓRIA

Os Cadernos de Gabriel

Gabriel Joaquim dos Santos aprendeu a ler e escrever com quase trinta anos. Desde então, criou uma relação especial com a leitura e a escrita. O Altar dos Livros é o epicentro da Casa da Flor e a parte do seu interior onde o artista mais se preocupou com a riqueza de detalhes. Nas fotos mais antigas percebe-se como o espaço estava sempre repleto de livros antigos, recebidos por doações ou coletados na rua. Gabriel deixou inúmeros escritos realizados em diversos cadernos. Nesses cadernos, o artista popular mesclava fatos ordinários do cotidiano, relatos dos nascimentos, casamentos e mortes na comunidade do Vinhateiro, marcos da história regional, relatos das condições de trabalho nas Salinas, as lutas trabalhistas do seu tempo, além de acontecimentos fundamentais da história nacional; traçando um recorte único do longo século XX entre os anos de 1920 e 1980. Os cadernos impressionam pela concisão narrativa e pelo rigor nas datas. Os cadernos foram digitalizados em 2012 em uma iniciativa do escritório regional do IPHAN da Região dos Lagos, cuja sede fica em São Pedro da Aldeia, podendo ser consultados por estudiosos e pesquisadores da Região dos Lagos. Os originais foram doados ao Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, no Rio de Janeiro, também com amplo acesso à pesquisa e consulta.

OBRA DE BIÉ DE VINUTO II

Por Ivo Barreto

“A abundância de relatos acerca da transformação do seu espaço social e suas formas de conexão deixa bastante claro que Gabriel não permanecia alheio às transformações do seu entorno ou às relações envolvidas nesse movimento, estando todos registrados por ele: a criação e a desativação da estrada de ferro, a chegada do asfalto ao centro, a chegada do asfalto em frente a salina, a criação da ponte nova, ou ainda da Ponte Rio-Niterói, e muitas outras.(...) Pelos relatos, é possível perceber que Gabriel documenta tanto as origens, em tom memorialista, quanto o processo de ocupação, passando por um detalhado relato sobre os melhoramentos mais relevantes, no sentido da urbanidade e acessos a direitos básicos, como o início dos serviços de infraestrutura de água, a disponibilização da luz elétrica, a chegadas das escolas. O descompasso temporal em relação ao avanço dessas melhorias nas porções mais centrais da cidade fica, pois, latente quando posicionamos os dados registrados por Gabriel em paralelo à história regional documentada. (...) Observa-se, pelas anotações de Gabriel, um atraso de quase 20 anos para a chegada da luz elétrica no Vinhateiro. Esses lapsos temporais logo podem ser percebidos em outras situações, reforçando o papel marginal encarnado pelo contexto urbano no qual se insere a Casa da Flor.”

Trecho de Entre a Matéria e as Imatérias. Plano de Conservação Integrada da Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia / RJ

PEQUENO GLOSSÁRIO DE NOVOS CONCEITOS PARA SEREM ARTICULADOS COM A CASA DA FLOR

Por Fábio Emecê

Diáspora Africana

É a ocupação do Mundo pelos Africanos, primeiro de forma traumática, continuando de forma voluntária e depois de forma tecnológica para remanejo dos conhecimentos via assentamento, via rasura, via bricolagem, via transgressão.

A 1º Diáspora com a migração forçada de africanos via violência colonial;

A 2ª Diáspora com os Africanos fora de África, nas reconstruções e ressignificações das suas culturas, suas lutas de resistência contra escravização, o jugo colonial; e as possibilidades de trânsito nos territórios;

A 3ª Diáspora a partir da tecnologia a serviço da troca de informação e de saberes entre os pretos espalhados pelo Globo, tendo a Globalização um papel fundamental para essa difusão.

A diáspora opera no deslocamento dos signos, textos, sons, imagens produzidas por pessoas pretas em constante e inconcluso diálogo. São realidades tecidas de encontros e antagonismos, de exploração e resistência, de culturas e contraculturas.

Os saberes produzidos na diáspora são a possibilidade da defesa da condição de humanidade como contraponto da razão colonial. O que eles chamam de desvio, a diáspora chama de encanto por conta de esculhambar as lógicas dicotômicas.

No lugar do bem e do mal vem a astúcia, o escape, a esquiva, a antidisplicina, a peça (objetos formados e reformados), a síncope, a prática emancipatória (autonomia, liberdade, ternura e utopia), em constante tentativa. A mola propulsora da diáspora está nesse movimento e a Casa da Flor opera nesses signos.

GRIOT, guardião da memória e tradição viva

"Guardião dos segredos da Gênese cósmica e das ciências da vida, o tradicionalista, geralmente dotado de uma memória prodigiosa, normalmente também é o arquivista de fatos passados transmitidos pela tradição, ou de fatos contemporâneos."

Amadou Hampaté Bâ, pesquisador e griô de Mali

“O que é o mundo colonial senão uma pilhagem de cacos?”

(Luis Rufino - Pedagogia das Encruzilhadas)

“Ouço a tempestade. Falam-me de progresso, de ‘realizações’, de enfermidades curadas, de níveis de vida acima deles mesmos.

Eu, eu falo de sociedades esvaziadas delas mesmas, de culturas pisoteadas, de instituições minadas, de terras confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificências artísticas aniquiladas, de extraordinárias possibilidades suprimidas.

(...) Falo de milhões de homens desarraigados de seus deuses, de sua terra, de seus costumes, de sua vida, da vida, da dança, da sabedoria.

Falo de milhões de homens aos quais sabiamente se lhes inculcou o medo, o complexo de inferioridade, o temor, o pôr-se de joelhos, o desespero, o servilismo. Obscurecem-me com toneladas exportadas de algodão ou cacau, com hectares plantados de oliveiras ou uvas.

Eu, eu falo de economias naturais, harmoniosas e viáveis, economias na medida do nativo, desorganizadas; falo de hortas destruídas, de subalimentação instalada, do desenvolvimento agrícola orientado unicamente em benefício das metrópoles; de saques de produtos, de saques de matérias-primas.”

Aimé Césaire em “Discurso sobre o Colonialismo” (1955, Livros & Letras, 2010)

Trecho do Documentário "Casa da Flor - do Lixo à Beleza"Gabriel dos Santos
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