TUDO CAQUINHO MAS TEM MUITO VALOR

“As nossas sabedorias são de frestas, somos corpos que se erguem dos destroços, dos cacos despedaçados e inventam novas possibilidades.”

(Luis Rufino - Pedagogia das Encruzilhadas)

Valdevir dos Santos

Sobrinho-neto de Gabriel Joaquim dos Santos. Um homem octogenário que a mais de vinte anos zela, cuida da Casa da Flor e recebe seus visitantes em um roteiro que mescla a convivência com o tio com todo aprendizado recebido no processo de restauração da Casa. Tocador de violão. Contador de história. Guardião da memória. Uma biblioteca viva de saber popular.

GRIOT, GUARDIÃO DA MEMÓRIA E TRADIÇÃO VIVA 

"Eu sou um griot antes de qualquer outra coisa e o griot é a memória do continente africano, é sua biblioteca e é também, o guardião das tradições e costumes, encarregado da organização de todas as cerimônias." (Sotigui Kouyaté, griô de Mali)
Sotigui Kouyaté, griô de Mali

“A escrita é uma coisa, e o saber, outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não o saber em si. O saber é uma luz que existe no homem. A herança de tudo aquilo que nossos ancestrais vieram a conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos transmitiram, assim como o baobá já existe em potencial em sua semente”. (Tierno Bokar, griot de Mali)
Tierno Bokar, griot de Mali

"A Casa da Flor é o não esquecimento, a invocação, a incorporação, o alargamento do presente, o confiar da continuidade e o inacabamento."
Fábio Emecê

NOVOS NARRADORES

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Fabio Emecê

MC por vocação, professor por profissão, poeta por anunciação e vivenciador da emoção. Colaborador teórico do projeto e narrador do documentário UM CERTO SENHOR GABRIEL.

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Daniel Arm

Artista autodidata, cantautor, artista visual e ator. Um dos narradores do documentário UM CERTO SENHOR GABRIEL.

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Kátia Carvalho

Artesã aldeense, integra o coletivo “Bordadeiras de São Pedro da Aldeia” onde desenvolve o projeto “Bordado Solidário”. A mais nova ação do coletivo é o lançamento do livro “Bordando o Sonho, a Flor e a Casa”, um narrativa sobre a Casa da Flor através da arte de bordar.  Foi narradora no documentário UM CERTO SENHOR GABRIEL.

OS QUE VIERAM ANTES DE NÓS

O pensamento e a obra de Gabriel Joaquim dos Santos atraíram os olhares de diversos pesquisadores e estudiosos da Cultura Popular e suas ramificações ao longo do tempo. De forma geral, a Casa da Flor, sua principal obra, começou a ficar conhecida nacionalmente no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. As figuras de Amena Mayall e Amélia Zaluar despontam nesse período capitaneando movimentos regionais e estaduais que resultaram no Tombamento da Casa da Flor pelo INEPAC em 1983. O trabalho continuado de Amélia Zaluar foi fundamental para a desapropriação da Casa da Flor após a morte do seu autor em 1986 e para a primeira restauração da Casa no final dos anos 1990. Os anos 2000 trouxeram uma renovação na produção de pensamento que a obra de Gabriel suscita, com diversos trabalhos importantes sendo realizados no campo acadêmico. Destacamos os trabalhos da professora Danielle Maia e do arquiteto e professor Ivo Barreto, utilizados como principais referências teóricas para a criação da primeira edição da revista JACUBA - Cultura Popular - Teatro - Memória e para a pesquisa de roteiro do documentário UM CERTO SENHOR GABRIEL.

Amena Mayall

Pesquisadora e Ativista carioca  que realizou o primeiro trabalho de catalogação dos artistas populares de toda a Baixada Litorânea (Barra de São João, Cabo Frio, Búzios, Arraial do Cabo, São Pedro da Aldeia, Iguaba, Araruama e Saquarema), registrando o trabalho de dezenas de artistas populares entre o fim dos anos 1970 e início dos anos 1980. Nesse campo, lutou pela valorização da identidade cultural da Região dos Lagos estando à frente dos primeiros debates pela defesa do patrimônio material, imaterial e ambiental da região, da criação de entidades que tivessem a defesa desse patrimônio como sua prioridade; além de fomentar e organizar todo um movimento regional de organização e fomento dos artistas populares. Esteve à frente dos movimentos regionais responsáveis pelo tombamento estadual da Casa da Flor pelo INEPAC e organizou a primeira exposição coletiva reunindo obras de dezenas de artistas populares da Região dos Lagos no Museu do Folclore, Rio de Janeiro, em 1984, valorizando e apresentando velhos artistas populares que viviam no ostracismo como Antônio de Gastão, Chico Tabibuia, Mudinho da Rasa, Táqui, Irene e Castorina - as rendeiras do Cabo -além de revelar novos nomes que ainda estão em atividade como o escultor Chiquinho da Sucata e o bonequeiro Clarêncio Rodrigues. Uma das autoras do samba-enredo Do Luxo ao Lixo - Gabriel Joaquim dos Santos e a Casa da Flor, criado no ano de 1984 dentro do contexto de luta pelo tombamento da Casa. Faleceu precocemente em abril de 1986, deixando inúmeros trabalhos ainda inacabados e influenciando gerações de pesquisadores e memorialistas.

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Amelia Zaluar

Pesquisadora mais conhecida ligada à Casa da Flor. Entrou em contato com a Casa da Flor em 1978 a partir de artigo assinado por Amena Mayall e Anita Mureb e nunca mais se afastou da obra. Levou a Casa da Flor para a XVI Bienal de São Paulo, em 1981, inserindo a obra de Gabriel no circuito artístico nacional. Organizou inúmeras exposições ao longo do tempo a partir do farto material iconográfico e sonoro coletado por ela em anos de pesquisa com o autor. Criou o Instituto Cultural Casa da Flor, que funcionou de 1987 a 2006. Pelo Instituto, esteve à frente do processo de desapropriação da Casa no início dos anos 1990 e do complexo processo de restauração da obra em meados dos anos 2000. O Instituto também foi responsável pela guarda dos Cadernos de Gabriel até o ano de 2012, quando foram digitalizados e doados ao Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Dentre suas publicações destaca-se o livro A Casa da Flor: tudo caquinho transformado em beleza, de 2012, além do documentário Casa da Flor - do lixo à beleza, de 2013. Faleceu em janeiro de 2021.

Danielle Maia

Professora e Mestre em Museologia e Patrimônio pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2014) com o projeto Casa da Flor: experimento, poesia e memória. A dissertação nasceu a partir de projeto realizado no “chão da escola” com alunos do CIEP 262 - Curvelina Dias Curvello, no bairro do Porto do Carro, em São Pedro da Aldeia.

Ivo Barreto

Arquiteto, Professor e  Autor de Entre a Matéria e as Imaterias: Plano de Conservação Integrada da Casa da Flor. Dissertação de Mestrado em Projeto e Patrimônio, em 2017. Foi organizador do livro Cabo Frio Revisitado: a memória regional pelas trilhas do contemporâneo, lançado em 2020, trazendo novos apontamentos sobre a história regional através dos olhares de 20 pesquisadores da região. Comandou o escritório regional do IPHAN na Região dos Lagos e esteve à frente do processo de digitalização dos Cadernos da Gabriel.

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Geraldo Ferreira

Pesquisador e memorialista aldeense, fundador e colaborador do Instituto Cultural Casa da Flor junto à pesquisadora Amelia Zaluar. Autor da obra “São Pedro da Aldeia Quatrocentos Anos”.

OBRA DE BIÉ DE VINUTO III

Por Ivo Barreto

“É importante salientar que Gabriel foi viver naquele terreno em 1899, quando seu pai Benavenuto Joaquim dos Santos, nascido em 1842 - ex-escravo e feitor de escravos, casado com Leopoldina Maria da Conceição, filha de uma índia - adquire uma propriedade no então bairro do VInhateiro, quando Gabriel teria 07 anos de idade. Negro e pobre, não havia, portanto, qualquer possibilidade de acesso ao ensino e alfabetização formal para Gabriel e seus 11 irmãos naquele contexto polítco, o que leva a Gabriel a aproximar o ato de ler e escrever à sua própria noção de liberdade e concepção de empoderamento. A leitura e a escrita são, para Gabriel, uma janela de libertação, um passe de acesso a um universo proibido de valores e informações até então cerceado à condição de sujeitos como ele. A leitura se torna, em sua obra, uma das bases de suporte de sua narrativa de liberdade.”

Trecho de Entre a Matéria e as Imatérias. Plano de Conservação Integrada da Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia / RJ